Traduzimos a entrevista do Telegraph com will.i.am

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O escritório de will.i.am em Hollywood é metade a caverna de um vilão de James Bond e metade playground californiano. O edifício de concreto se chama The Future, e não é por outra razão que o cantor está apto a dizer quando te cumprimenta, “bem vindo ao futuro”. Os pisos são preto envernizados, as paredes sem janela de cal lavado, a força de trabalho é composta por pessoas jovens e sérias vestidas quase completamente de preto, e robôs de vídeo conferencia que se movem entre as salas de reunião.

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Árvore decorativa na The Future

As únicas decorações são tigelas de abacate na cantina e árvores falsas feitas de musgo rosa e laranja presos em troncos retorcidos. “Eu queria um pouco de cor, porque tudo é preto e branco” diz will, enquanto me conduz. “Mas eu não queria plantas. E estas se parecem com Dr. Seuss ou Willy Wonka”.

O mais curioso é o banheiro. Quando você entra subitamente no toalete, é confrontado por uma série de botões nas paredes que controlam a privada japonesa Toto. Os botões são: limpeza traseira, limpeza da frente ampla, pressão, pulsante, oscilante. Isso é, usando uma frase do will, “um banheiro Star Wars”. “Quando estramos pela primeira vez, Jimmy Lovine (primeiro produtor musical de will), que é como meu mentor, deu uma volta e disse: ‘Por que precisa de tudo isso?’ e eu disse: ‘Mas é tudo sobre incentivar a criatividade aqui, estamos criando o futuro'”.

Antes de eu ir para a The Future, me foi entregue em mãos três lados de folha A4 por alguém de seu pessoal de relações públicas, intitulado “Sugestões para maximizar o seu tempo de entrevista com will.i.am”. Ele me informa que não posso discutir sua renda ou patrimônio líquido e inclui o conselho: “Se ele pede para você repetir ou reafirmar uma pergunta, isso indica que você precisa fazer perguntas mais nítidas, mais diretas” junto com várias “verificações de fato”. “Para referencias musicais, ele é sete vezes vencedor do Grammy Awards, o vocalista do Black Eyed Peas, e tem uma carreira solo como artista de Hip Hop. Por favor, não use ‘rapper’. Ele é o primeiro artista musical a transmitir uma música de volta de marte”.

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“Sugestões para maximizar o seu tempo de entrevista com will.i.am ‘”

E: “Se a politica editorial dita que você deve usar seu nome legal no topo da história, é William Adams. Todos os outros listados estão incorretos. Seu título/descrição é: empresário, filantropo e fundador e CEO da i.am+”. Isso faz ele soar como um narcisista classe A e um mundo distante de seu papel como juiz no The Voice UK, onde ele aparece como divertido, embora ligeiramente maluco. Mas quando nos encontramos, ele é desprovido de ego.

Quando muito, ele é ansioso, arrastando um pé para o outro e ocasionalmente, arrumando suas palavras desordenadas. “Desculpe pela gagueira, estou tão nervoso” diz em um ponto. Isso é porque está prestes a me mostrar um projeto que vem trabalhando há quatro anos, e onde derramou boa parte de sua fortuna pessoal. É um dispositivo chamado deal, um smartwatch que espera rivalizar com os produzidos pela Apple e Samsung. A The Future pode se parecer com o Silicon Valley equivalente da fazenda de Maria Antonieta, uma companhia fundada pela vontade de um músico milionário com a predileção por gadgets.

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The Future

Mas will é muito sério sobre sua aventura i.am+. Com 41 anos, ele agora emprega cerca de 120 pessoas em quatro locais:  Singapura, Bangalore, Tel Aviv e Los Angeles. Até agora, os produtos que desenvolveu falharam em impressionar os críticos. Primeiro foi o photo.sosho, uma pesada case de iphone melhorada que o duplica como uma câmera. Ela custa £ 320 e foi descrito pela imprensa de tecnologia como “apavorantemente feio”. Depois, houve o Puls, a primeira tentativa da i.am+ em um smartwatch. Foi lançado em 2014 e esfolado por críticas.

Gizmodo, o influente site de tecnologia escreveu que ele “foi projetado por um lunático cercado por homens que concordam com tudo”. Ele é, compreensivelmente, defensivo: “Sim, estou sempre criando. E sim, eu lancei uma câmera para telefone. E sim, para você pode parecer que nós não tivemos sucesso, mas para nós ele foi. Porque nós vendemos a quantidade que fizemos. E sim, nós fizemos um Puls, e sim, isso não estava amplamente disponível. Então, para você isso não fez sucesso. Mas para nós, aprendemos muito: como fazer as coisas em um ritmo rápido, e fazer as coisas e obter feedback. Então, sim, de um ponto de vista cínico, lançamos coisas que não teve êxito. Para nós, eles tiveram sucesso”.

Sua demonstração do dial não foi executada sem problemas. É um relógio que não precisa ser emparelhado com um telefone, pode fazer chamadas, textos, tocar música e tirar fotos – tudo através da ativação de voz. Para demonstrar, ele dita uma mensagem de texto muito longa em seu pulso sobre procurar sushi, que a ativação de voz encontra. Mas quando ele diz que quer beber quatro shots de saquê, isso resulta em “quatro shots de sucção”. Sugestão muito engraçada. “Sabemos que esses dispositivos não são perfeitos, mas de todas as versões de ditado de voz, o nosso é o mais legal”.

A pressão está colocada.  Ao contrario dos outros aparelhos, este vai estar amplamente disponível no Reino Unido, porque ele fez uma parceria com operadora Three, que irão vender o dial em suas lojas de rua e fornecedores de SIM cards. “Isso é real agora. Estes são parceiros de verdade. Este é o produto real no mercado” diz will. “Não que as outras coisas eram falsas”. will está longe de ser o primeiro músico de sucesso em perceber que, na era de downloads e streaming, você não pode mais fazer o dinheiro sério com música.

Ele cita como exemplos P Diddy e sua marca de tequila, Rihanna e seus negócios com a Puma,os tênis de Kanye West – “amo eles. Estou tão feliz e orgulhoso por ele”. Mas ele está convencido de que não vai ganhar dinheiro apenas endossando produtos. Ele quer fazer os produtos. “Por que eu tenho que fazer isso dessa forma? – onde estou me mantendo por uma empresa? Por que eu não posso ter minha própria empresa e visualizar um produto?”. Por isso a The Future, que está lotada de designers, engenheiros de software, programadores e uma sala cheia de impressoras 3D.

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dial

Nós nos encontramos um dia depois da primária de New Hampshire, que Donald Trump teve uma generosa vitória. Ele demonstra claramente seus sentimentos.  “Trump não seria apenas um desastre para a América, mas para o mundo também. ” Ele diz que admira o pré-candidato democrata Bernie Sanders, “Eu realmente gosto de seu idealismo, mas nós temos que ter a merda pronta. Há muitas coisas que estão uma bagunça. A educação está fud***“. Hillary Clinton é a resposta? Ele é relutante em apoiá-la  completamente, mas diz “ela é ótima”. Ele fala sobre o quanto adora Chelsea Clinton, com quem se encontrou muitas vezes – “aquela criança é maravilhosa” – e diz que sua mãe tem muitos créditos sobre isso.

Estávamos conversando em seu estúdio de música, que tem um distinto cheiro de canela. Acontece que é Hermès’ Un Jardin sur le Nil (um perfume da marca Hermé). Estamos a apenas 10 milhas de Boyle Heights, bairro violento ao leste de Los Angeles onde ele foi criado, mas estamos em um mundo diferente. “Boyle Heights é como Brixton. Mais ou menos”, ele explica. “Mas imagine que em vez de ter forte influencia Afro descendente ela é mexicana e El salvadorenha. Você tem Londres e você tem Brixton. Você tem LA, e você tem East LA / Boyle Heights. Você nunca vê ninguém em Hollywood a partir de Boyle Heights”.

Este continua a ser um bairro onde os níveis de educação são baixos e a pobreza alta, nove pessoas foram assassinadas lá no ano passado. “Boyle Heights é perigoso. Mas minha mãe era muito rigorosa. Eu realmente não podia sair depois de uma certa hora. E ela dizia, não vá além de Roberts Yard”. Qual era o medo? “Meu medo era minha mãe! O medo da minha mãe era que eu fosse pego em coisas que eram o oposto de como ela estava nos educando”. Eu pergunto se ele conheceu pessoas de sua escola que acabaram em gangues. “Sim, mortos”.

Sua mãe foi uma mãe solteira – ele nunca conheceu seu pai.  Em vez de mandá-lo para a escola local, Roosevelt High, ela o transportava de ônibus por duas horas cruzando a cidade até a sofisticada área de Brentwood para uma escola especializada em ciência e tecnologia. Ele fala de sua mãe com admiração e diz que ele é verdadeiramente “o produto de como minha mãe me criou, não o que me cercava”. Se ele tivesse ficado e ido para o Roosevelt High, “minha vida seria totalmente diferente”.

Em sua nova escola ele experimentou vários nomes diferentes (incluindo Master Will e Will1 X) antes de escolher will.i.am: “Era sobre os pontos. Eu só vi os pontos “ Lá ele conheceu Allan Lindo – Conhecido como apl.de.ap – com quem fundou o The Black Eyed Peas. Eles iriam passar a ser uma das bandas de maior sucesso dos anos 1990 e 2000, com sucessos como Where’s The Love? e I Gotta Feeling. Mas will sempre teve um olho no lado dos negócios da banda.

“Em 1999 eles nos pediram para fazer um anuncio de bebidas. E eles nos pagaram baldes de dinheiro”. Foi para Dr. Pepper. Ele logo notou que se escrevesse a música e pagasse seu próprio administrador, o dinheiro seria muito maior do que se ele apenas cantasse. Ele comparou aquele pagamento com o que ele ganhou com um albúm. “Minha nossa! Cai fora dessa po***! Droga! É dessa forma que deixo minha mãe fora dos projetos”. (Ela agora vive perto de will em Los Feliz).

Isso também deu a ele um gosto de como as grandes corporações, principalmente as empresas de tecnologia,  estavam desesperadas por um pouco de credibilidade entre os jovens. Ele foi contratado como consultor pela a Intel. Isso lhe permitiu identificar o potencial Beats Electronics, uma empresa de headphones co-fundada por Iovine, produtor dos Peas. Will foi um dos primeiros investidores. Embora sua participação não tenha sido declarada, ele se tornou um homem muito, muito rico quando a empresa foi vendida para a Apple para inacreditáveis $ 3 bilhões de dólares em 2014.

Sofa-large_trans++sZo37C7VB15U4O7EnQ4ChxslnDUedDrhK3RTdVmpWEgMais tarde, eu jantei com will e ele é absolutamente encantador. Ele parece surpreso e chocado quando eu conto a ele sobre o documento ‘dicas para maximizar o seu tempo com will.i.am’. “Você está de brincadeira!” ele ri. Ele fala com carinho sobre o quanto ama não apenas ser um juiz do The Voice, mas também passar um tempo em Londres, ficando por lá por cerca de 10 dias por mês entre outubro e março, enquanto o programa está sendo gravado. Ele passa seu tempo livre sorrateiramente no cinema em Westfield Shepherd’s Bush e comendo sushi no Nobu, seu restaurante favorito.

“Eu amo TV. Eu amo estar nisso. As pessoas têm medo de serem elas mesmas na TV. Eles sentem como se tivessem que ‘estar na TV’, eles não são do jeito que são em casa. Eu gosto de ser apenas eu e gosto que as pessoas gostem disso”. Inicialmente ele estava chateado com a mudança de jurados nestatemporada. “Eu realmente sinto falta do Tom Jones, porque adoro ele. Mas gosto da eletricidade que o Boy George trouxe”. Ele está indeciso sobre se quer permanecer no programa quando ele sair da BBC e ir para ITV no início do próximo ano. “Eu estou um pouco dividido entre o que a i.am + vai fazer, e também o que eu realmente amo fazer, que é estar na TV”.

Queen-large_trans++NLFz2QTH6RCwPE4UPA-sBRU1v4-iou4WDzY51a765KILondres é um grande atrativo e a cidade tem correspondido: ele se apresentou para a Rainha no concerto do jubileu em 2012, e juntou forças com o Príncipe Charles para financiar um projeto de educação no East End. Ele doou a maior parte do que ganhou em 2012 com o The Voice para o projeto, que ensina ciência e tecnologia para crianças de Newham – bairro que acolheu os Jogos Olímpicos.  “Me lembro dos Jogos Olímpicos estarem em East LA em 1984, quando eu estava crescendo. Lembro-me de toda a comoção, todas as reformas, e me lembro do que aconteceu depois dos Jogos Olímpicos. Nada. Eu queria ter certeza de que algo aconteceu após os Jogos Olímpicos em Londres”.

Ele descreve Londres como um caldeirão, até mais do que Nova York. “Porque o Reino Unido está exatamente no centro do mundo, e há pessoas da Romênia, do Oriente Médio, Nigéria, Espanha, Alemanha, todo mundo vai para o Reino Unido. Eu me sinto em casa lá”. Ele também brinca que gosta do tempo de Londres, “porque eu posso usar camada por cima e ser elegante por baixo”“Quando eu tiver uma família, eu gostaria de viver e criar uma família lá”. Mas ele não está interessado em uma propriedade na capital. “Não, eu gosto da ideia de grama e terra”, e diz que procurou em Surrey, que ele pronuncia ‘Sorry’ com um sotaque britânico imitado.

Crianças não são uma perspectiva imediata, até porque ele não tem uma parceira. No passado, houve uma ocasional Voice-xlarge_trans++1N-0BbrGahnullJmqzE3f-PHi_e1tpOIk75CAYQiDp0namorada de alto nível, como a cantora Natalie Imbruglia, mas ele é muito tímido quando se trata de sua vida privada.  Ele explica que sempre lutou para conquistar namoradas porque elas o colocam na “friendzone”. “Se você é próximo a mãe, se você é bom, você ouve mais do que fala – por alguma razão, as garotas nunca querem um relacionamento. Elas dizem, ‘Eu nunca quero estragar isso'”.

Que tal começar uma família? “O que você quer dizer com família? Troca de DNA ou você quer dizer incentivo, estabelecer moral e proporcionar oportunidade? Para mim, isso é tão familiar como troca de DNA porque eu sou um produto de uma troca de DNA e não sei quem é o meu pai”. Ele sugere adoção – sua mãe adotou quatro filhos depois que ela teve seus próprios filhos. “Há um monte de bebês que não tem pais. Ainda não estou completamente pronto para fazer como Angelina Jolie, mas eu tenho um bocado de filhos como adotados de uma forma indireta”.

Com isso ele quis dizer que tem ajudado financeiramente muitas crianças – de Boyle Heights – a fazerem cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, a fim de ajudá-los a obter bolsas de estudo em universidades de elite. Até agora, 260 crianças de Roosevelt High – escola da qual “escapou” –  foram ajudadas pela sua fundação ao longo dos últimos quatro anos, com os primeiros devidamente começando na universidade no próximo Outono. Em seguida, ele acrescenta, “Não agora. Eu preciso completar este sonho antes de me tornar egoísta, tendo filhos”. Seria este sonho ser o próximo Steve Jobs? “Eu não quero ser o próxima nada. Quero ser eu. Mas, para ter uma carreira como a dele? E criar uma empresa como a dele? Oh, sim”.

Considerando o quão longe ele viajou – a partir de Boyle Heights, passando pelo Palácio de Buckingham, para a The Future, não é muito distante de se imaginar ele terminando sua jornada de gestão de uma empresa seriamente rentável no Vale do Silício. Então, ele pode realmente dizer, “Eu estou no comando do futuro”.

 

link original: http://www.telegraph.co.uk/men/the-filter/william-on-trump-tom-jones-and-being-put-in-the-friend-zone/

Autor do Post
Felipe Vieira

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