Conheça um pouco mais da história de apl.de.ap, o filipino que pertence ao mundo

Cabelo moicano, óculos estilizados e tênis de cor prateada e dourada… Em um mar cheio de artistas com ternos escuros e vestidos de seda, apl.de.ap se destaca como ‘um rubi ao olhar de um homem negro’, como na citação de uma frase em “That Song About The Midway” de Joni Mitchell.

Ei, e aí cara? O que um dos caras maneiros do Black Eyed Peas está fazendo no Raffles Hotel em um fórum cheio de “branquinhos” filhinhos de papai para fazer doação beneficente?
Para ser o condutor da reunião do Segundo Fórum dos Filantropistas da Credit Suisse, acredite ou não.

apl.de.ap, que é filipino (naturalizado americano), cujo nome verdadeiro é Allan Pineda Lindo Jr. – estava na Cidade de Singapura há um mês num evento da sua Apl.de.Ap Foundation. Criada em 2008, cujos fundos recebidos vão para educação de crianças carentes nas Filipinas e Ásia.

“Estou aqui para aprender como fazer minha fundação sustentável. Estou aqui para defender a educação. Quando você tem uma educação, você pode fazer qualquer coisa acontecer”, diz ele ao The Sunday Times no hotel Casuarina Suite.

A educação certamente ajudou muito Apl, levantando-o de uma vida de pobreza nas Filipinas para a fama e fortuna nos Estados Unidos.

Ele nasceu em Angeles City, no distrito de Pampanga, sendo sua mãe filipina e seu pai um aviador africano-americano em posto da Clark Air Base.

“Eu nunca conheci o meu pai. Ele foi embora antes de eu nascer”, diz o rapper, de 37 anos. Ele foi criado por sua mãe, que se casou novamente e teve outros seis filhos.

A vida em sua vila em Sapang Bato foi dura. Não havia serviços de saneamento, e nem eletricidade na sua aldeia até seus cinco anos.

Ele começou a trabalhar nos campos logo quando garoto, cultivando cana-de-açúcar, milho e batata-doce com seu avô. “Eu também cuidava dos búfalos de água. Eu quem os ordenava, e montava deles também” ele relembra.

Felizmente, sua mãe era empreendedora e colocava comida na mesa trabalhando em uma loja de carvão, em frente ao seu barraco. “Ela colocava os carvões nos pacotes e eu colocava os preços com meu padrasto quando ele os entregava no sari-sari (barraca ou loja típica das Filipinas, que vende várias coisas, como em uma lojinha de conveniência), em nossa vila”, conta Apl.

Sua mãe também inscreveu Apl na fundação americana The Pearl S. Buck Foundation, que ajuda crianças abandonadas ou órfãs. O advogado especial contra causas de abuso infantil Joe Ben Hudgens, de Los Angeles, ajudava o jovem Apl em sua educação e suas despesas pessoais por um programa de doação de 75 centavos de dólar por dia.

“Em troca, eu escrevia-lhe cartas mostrando as minhas notas. Cartas que eu comprava com o dinheiro que ele mesmo me dava. Também gostava de dizer para ele como as minhas notas ficavam baixas às vezes por causa do nistagmo”, diz o músico, que nasceu com nistagmo, uma doença que causa o movimento involuntário dos olhos, no qual resulta em uma visão embaçada ou limitada.

“Eu tenho um controle maior agora, mas na época, minha cabeça costumava se mexer muito. Eu tinha que seguir o movimento dos meus olhos a fim de ser capaz de se concentrar em alguma coisa”, diz Apl, que era parcialmente cego e não podia ver pessoas ou objetos a mais de 2 metros de distância.

Os colegas de classe costumavam a rir dele por que ele precisava afastar a sua cadeira para frente da sala, bem debaixo do quadro. “Alguns professores preocupados costumavam me perguntar: “O que você vai ser de você quando crescer?”.

Mas o menino tenacioso não deixou que isso o deixasse cabisbaixo. “Isso só me fez olhar para outras habilidades minhas”, diz.

Em sua adolescência, ele descobriu o breakdance e o rap enquanto frequentava o ensino médio em Angeles City.

Ele viu os jovens dançando em esquinas e começou a ouvir os hip-hops americanos como N.W.A e os Beastie Boys. “Eu disse a mim mesmo, ‘Hey, eu posso fazer isso também. Posso ver o chão quando eu danço breakdance, eu não preciso usar a minha visão. E eu poderia até escrever (letras de rap) na minha cabeça sempre’. A música me deu esperança”, diz ele.

Em 1986, quando tinha 12 anos, o Sr. Hudgens solicitou que ele fosse para Los Angeles para que os médicos pudessem examinar sua condição.

Ele foi levado para os parques da Universal Studios e Disneyland, e Sr. Hudgens perguntou a ele se gostaria de ser adotado e se estabelecer no país. Ele disse que sim, depois de conversar com sua mãe. “Todo mundo nas Filipinas estava à procura de uma oportunidade de ir para o estrangeiro. E eu queria isso também, para que eu pudesse ajudar a minha família e levá-los para lá também”, diz ele.

Dois anos depois, ele desembarcou em Los Angeles e bateu de cara no choque cultural. “Eu me lembro que fiquei fascinado pelas janelas elétricas; não dava para eu apertar os botões do controle” ele relembra com uma boa risada.

Duas semanas mais tarde depois de ter chegado em solo americano, no entanto, a euforia se dissipou. “Eu já estava com muita saudade de casa. Eu não conseguia dormir à noite, então eu perguntei ao meu pai se ele poderia me mandar de volta para minha casa nas Filipinas”, diz apl. “Meu pai disse: ‘Ah não, filho. Os documentos de adoção são definitivos. Você tem idade suficiente para se lembrar de sua família. Uma vez que você consiga ser alguém aqui, você sempre poderá voltar à sua casa.”

Felizmente, ele logo encontrou William James Adams Junior, que viria a se tornar seu colega de banda do Black Eyed Peas, will.i.am.

Sr. Hudgens – um pai solteiro – conseguiu com que a mãe de will.i.am olhasse apl, seu filho adotivo, depois da escola. Apl lembra: “Então, eu ia para a casa dela, e eu começava a sair com o will. Eu me lembro de nossa primeira conversa. Ele disse: ‘Então você é das Filipinas? O que vocês fazem lá?’. E eu disse, ‘Eu só aprendi esse novo passo de dança que se chama The Running Man”.

Eles se tornaram tão populares quanto os membros de gangues que os rodeavam, mas eles não foram para esse caminho. Formaram um grupo de breakdance chamado Tribal Nation, e se apresentavam em clubes, festas caseiras e de faculdades em todo o sul da Califórnia.

Ambos se inscreveram para estudar design de moda num curso técnico em Los Angeles depois de sair do Ensino Médio. “No breakdancing, você cria seu próprio estilo. Fazíamos compras em brechós, cortávamos paletós e misturávamos com cardigans. Portanto, achei que iria estudar moda e fazer nossas próprias roupas”, diz ele.

O curso não era o que eles imaginavam e então eles o abandonaram e começaram a se concentrar em fazer músicas demos e performando. Não era uma tarefa simples.

“Eu já vivi em armários, dormindo em sofás e em carros. Tive de trabalhar em canteiros de obras, fazer pipoca e nachos em cinemas e fazer telemarketing para pagar o aluguel”, diz ele sobre os anos antes de alcançar o sucesso.

O grupo Tribal Nation se tornou Atban Klann, e depois se transformou finalmente em The Black Eyed Peas, mas o sucesso só eclodiu alguns anos depois. “Mas nós nunca pensávamos em desistir. Eu não podia suportar a ideia de não fazer isso. O que me fez deixar meu pai que me acolheu e fazer meu sucesso. Não tinha como dizer ‘não’ como resposta. Nós faremos isso até nossas pernas caírem de cansaço.”, diz ele.

A banda decidiu que precisávamos nos tornar mais atraentes para as companhias de gravação.
“Nós decidimos que precisávamos criar nosso próprio caminho. Depois de cada show, nós pegávamos o endereço de todos os contatos de donos de casas de show e criamos uma agenda. Nós enviávamos para eles o flyer para o nosso próximo show.”

Os flyers causaram um efeito ‘bola de neve’, do jeito que eles estavam esperando. Dois anos na estrada, seus shows atraíam multidões de mais de 2.000 pessoas. Logo depois surgiam brigas entre as gravadoras Sony Music e Interscope Records por eles.

Em 1998, o Black Eyed Peas lançou seu primeiro álbum, Behind The Front, com a Interscope. Embora o segundo álbum Bridging The Gap ter ganho aplausos positivos dos críticos, o terceiro álbum da banda, Elephunk, de 2003, foi o que fez eles se tornarem estrelas mundiais.

Com os vocais da nova integrante Fergie, Elephunk os rendeu sucessos monstruosos, como Where Is The Love? e Shut Up.

Não havia como voltar atrás. Eles começaram a ganhar diversos prêmios. Em 2010, ganharam três Grammy Awards (Melhor Video Clipe com “Boom Boom Pow” / Melhor Álbum Pop com “The E.N.D” / Melhor Performance com Vocais por um Dueto/Grupo com “I Gotta Feeling“). Naquele ano, quatro de seus hits ficaram em primeiro lugar no TOP 100 da Billboard, para um inédito recorde de 26 semanas consecutivas em #1.

Uma década depois de deixar as Filipinas, Apl voltou para o seu país de origem, famoso e bem sucedido.

Ele construiu uma casa para sua mãe e comprou uma plantação de arroz. Ele conseguiu um visto para ela de 10 anos para os EUA e está tentando fazer o mesmo para seus quatro irmãos. Dois de seus irmãos mais novos já faleceram. Um cometeu suicídio, o outro foi assassinado.

“Depois do terceiro álbum, eu ia para casa nas Filipinas, todo o Natal. Foi quando eu comecei a ver as diferenças entre a vida das crianças dos EUA e das Filipinas e, em seguida, me veio à mente: ‘Eu era uma daquelas crianças pobres também.'”

Em uma viagem à Manila, ele viu uma criança, de apenas 10 anos, carregando outra criança, mendigando nas ruas.

Tomado por uma convicção de que ele precisava fazer alguma coisa, ele pegou o telefone e ligou para sua mãe. “Eu disse: ‘Mãe, eu preciso comprar um edifício. Vou voltar durante o Natal e trazer comigo 25 laptops e vou colocá-los nesse edifício e todas as crianças do bairro vão ir lá e aprender sobre computadores e internet.”.

E foi assim que a Apl.de.ap Foundation foi criada.

E o quanto mais ele resolvia os problemas, mais ele voltava para fazer.

“Eu vi alunos nadando em rios antes de ir para a escola. Eles têm que deixar suas mochilas da escola ao lado do rio, e a única vez que eles podem fazer sua lição de casa é quando eles estão em seu caminho para a escola no dia seguinte “, diz apl, balançando a cabeça tristemente negativa.

A fundação agora se concentra na construção de salas de aula, ajudando a conectar o buraco que existe atualmente no sistema educacional do país. De acordo com o Departamento de Educação, as Filipinas só tem 65 mil salas de aula construídas em todo o país (o que é pouco, para a grande escala de pessoas que necessitam da escola).

As iniciativas de Apl logo chamaram a atenção de grandes organizações. Agora, sua fundação está trabalhando com a ajuda de San Miguel, a Ninoy e Cory Aquino Foundation, bem como a Ayala Foundation, com ajuda não só na construção de escolas, mas também na direção das reformas educacionais e implementação de programas de alimentação escolar.

“Eu estou apenas seguindo os passos de meu pai. Aquele homem tomou a decisão de adotar uma criança de um país de terceiro mundo e trouxe-o para os EUA. Esse é o caminho que eu deveria seguir, e é por isso que eu estou fazendo o que eu estou fazendo agora”, diz o rapper, que faz viagens para sua casa das Filipinas quase todos os meses para lá.

Sr. Jamie Santos, um dos doadores da Apl Foundation diz: “Ele é apaixonado por isso, porque ele teve esse mesmo benefício da educação quando criança. Mas sua chance aconteceu por acaso. Ele não quer que isso aconteça com outras pessoas. Sua diretiva é: Se você deixar tudo acontecer por acaso, muitas pessoas serão esquecidas”.

Isso explica o porquê Apl acompanha tudo isso de perto. Ele escolhe os locais para a construção das escolas, e já visitou todas as escolas que sua fundação construiu.

“Eu gosto de ver isso acontecer, desde o preparo do chão até o dia da entrega da escola, e atualmente, vendo os prédios das escolas sendo construídos. Isso é o que me mantém motivado. Eu vou lá conversar com as crianças, eles me contam muitas histórias”.

Além de seu trabalho filantrópico, ele também contribuiu com uma canção – Take Me To The Philippines – para uma campanha de turismo e criou uma gravadora, a Jeepney Music, para promover músicos filipinos.

Dois meses atrás, o presidente Benigno Aquino nomeou o rapper como embaixador para promover a paz no país. Uma das primeiras coisas que fez foi colaborar com artistas muçulmanos em Mindanao (uma grande base de forças rebeldes muçulmanas) para escrever uma canção de paz.

Não é de surpreender que ele seja amado por muitos filipinos.

O Sr. Audie Vergara, que trabalha com ele na fundação, diz: “Muitas pessoas deixam e esquecem de onde vieram. Mas ele não deixou, se bem-sucedeu e voltou para casa para passar um tempo aqui e ajudar as pessoas”.

Apl, portanto, é um exemplo a ser seguido.

“Eu só faço o que tenho que fazer e o que me faz sentir bem”, encerra Apl.
 

The Sunday Times / Asiaone (Tradução na íntegra por Gabriel, PortalBEP)

Autor do Post
Gabriel

Comentários

4 Comentários
  1. postado por
    Gustavo Soares
    dez 30, 2012

    Nuss q história de vida… Cadê o livro do Black Eyed Peas contando a história de cada um ?

  2. postado por
    Ana Breda
    dez 31, 2012

    é só arranjar alguém que saiba escrever com correção e poderá escrever esse livro.

  3. postado por
    bruna
    jan 4, 2013

    queria a historia do taboo não acho de jeito nenhum

  4. postado por
    jean
    mar 29, 2013

    temos que pensar temos que viver temos que guardar

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